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Da prioridade à execução: capacidades para sustentar a ação pública

Com: Marco Subercaseaux

Executivo do setor público - Docente universitário - Consultor internacional - Engenheiro

seta

Uma conversa sobre capacidade institucional, coordenação, investimento público e as condições que permitem transformar prioridades estratégicas em ação sustentada.

Questão

01.

Resposta

Na sua perspetiva, que condições institucionais determinam de forma mais fundamental se as prioridades estratégicas de longo prazo são traduzidas em ação pública coerente e sustentada?

Na minha perspetiva, a primeira condição é que as prioridades estratégicas sejam sustentadas por uma verdadeira arquitetura de execução. No setor público, a distância entre conceber uma política e concretizá-la resulta frequentemente da ausência de responsabilidades claramente atribuídas, recursos adequados, autoridade institucional, competências profissionais e mecanismos eficazes de acompanhamento.
Uma prioridade de longo prazo tem de ser traduzida em objetivos mensuráveis, responsabilidades específicas, calendários, orçamentos e indicadores de desempenho. Tem também de ser incorporada nos sistemas correntes de gestão. Uma estratégia que não se reflita nas decisões orçamentais, nos arranjos organizacionais ou nas prioridades de investimento corre o risco de permanecer apenas uma declaração de intenções.

A segunda condição é uma administração pública profissional, capaz de preservar a memória institucional. As instituições perdem capacidade quando o conhecimento depende inteiramente de determinadas pessoas, quando as decisões não são devidamente documentadas ou quando cada mudança de liderança obriga os processos a recomeçar. A profissionalização, a continuidade das equipas técnicas e uma gestão eficaz do conhecimento são, por isso, essenciais.

A terceira condição é uma coordenação interinstitucional eficaz. Os grandes desafios públicos raramente se circunscrevem à competência de uma única organização. Tem de existir clareza quanto a quem lidera, quem executa, quem financia e quem responde pelos resultados.
Por fim, a liderança política e executiva deve manter uma direção estratégica clara, permanecendo simultaneamente capaz de adaptar a execução quando as circunstâncias mudam. Continuidade não deve ser confundida com rigidez. Uma instituição forte preserva os seus objetivos fundamentais, aprende com a experiência e ajusta os seus instrumentos sem perder coerência estratégica.

Questão

02.

Resposta

À medida que os governos enfrentam exigências fiscais, políticas e sociais cada vez mais complexas, como podem as decisões de investimento público preservar a coerência estratégica de longo prazo e, ao mesmo tempo, responder às pressões institucionais imediatas?

O investimento público é permanentemente moldado pela tensão entre urgência e estratégia. Os governos têm de responder a emergências, restrições orçamentais e necessidades territoriais imediatas, ao mesmo tempo que sustentam projetos cujos benefícios podem apenas tornar-se visíveis a médio ou longo prazo.

Gerir esta tensão exige critérios de priorização transparentes e relativamente estáveis. Esses critérios devem considerar o retorno social, o alinhamento com os objetivos estratégicos, o grau de preparação técnica, o impacto territorial, os riscos de execução e os futuros custos de operação e manutenção.

Os governos devem também gerir carteiras integradas de investimento, em vez de avaliarem cada projeto isoladamente. Uma abordagem por carteira permite identificar complementaridades, estabelecer uma sequenciação adequada, distribuir o risco e proteger investimentos com finalidade estrutural. Permite ainda ajustar a resposta a contingências sem desmantelar a estratégia mais ampla.

A sustentabilidade financeira deve ser avaliada ao longo de todo o ciclo de vida do projeto. Financiar a construção de infraestruturas não é suficiente; os governos têm igualmente de considerar os recursos necessários para as operar, manter e, eventualmente, renovar. Caso contrário, o Estado pode criar ativos que não conseguem produzir o valor público pretendido.

Deve existir também um processo disciplinado de revisão das decisões. A coerência estratégica não exige a manutenção indefinida de um projeto depois de desaparecer a justificação que lhe deu origem. Os projetos devem poder ser modificados, redesenhados ou descontinuados através de procedimentos técnicos, transparentes e devidamente documentados.

O objetivo, portanto, não é escolher entre prioridades de longo prazo e necessidades imediatas. É construir instituições capazes de gerir ambos os horizontes temporais, preservando a direção estratégica e mantendo flexibilidade suficiente para responder de forma responsável à evolução das circunstâncias.

Questão

03.

Resposta

Que capacidades de governação considera mais decisivas para coordenar instituições, alinhar incentivos e sustentar a execução de grandes programas públicos?

A capacidade mais decisiva é estabelecer uma estrutura de governação que defina claramente quem decide, quem executa, quem coordena as instituições participantes e quem responde pelos resultados. Muitos programas públicos enfrentam dificuldades não porque os seus objetivos sejam inadequados, mas porque as responsabilidades estão dispersas, se sobrepõem ou são interpretadas de forma diferente por cada organização.

A coordenação tem de ser institucionalizada. Não pode depender apenas de relações pessoais ou da disponibilidade temporária de determinadas autoridades. Uma execução eficaz exige órgãos executivos com autoridade claramente definida, procedimentos para resolver divergências e sistemas de acompanhamento do cumprimento das decisões acordadas.

Uma segunda capacidade é o alinhamento de incentivos. Cada instituição tem os seus próprios objetivos, recursos e obrigações legais. Os problemas surgem quando o desempenho individual de uma instituição não contribui para o sucesso do programa no seu conjunto. Os indicadores de desempenho devem, por isso, medir tanto o trabalho de cada instituição como o seu contributo para resultados partilhados.
Uma terceira capacidade é o acesso a informação integrada e atempada. Sem dados comparáveis, a coordenação transforma-se numa troca de perceções parciais. Sistemas de informação partilhados permitem identificar atrasos, antecipar riscos e compreender dependências críticas entre instituições.

A capacidade de resolver problemas durante a execução é igualmente importante. Os grandes programas deparam-se inevitavelmente com obstáculos administrativos, financeiros, contratuais, políticos ou territoriais. Uma governação eficaz não elimina a incerteza; identifica os problemas emergentes suficientemente cedo para que possam ser tomadas medidas corretivas antes de se transformarem em crises.

Por fim, a coordenação exige confiança institucional. A confiança constrói-se através de regras previsíveis, informação transparente, compromissos verificáveis e uma distribuição clara de responsabilidades. A coordenação não é uma atividade paralela à execução; é uma das condições fundamentais para que a execução seja bem-sucedida.

Questão

04.

Resposta

Na sua perspetiva, que arranjos institucionais são essenciais para preservar continuidade, credibilidade e valor público de longo prazo em contextos governativos em mudança?

O primeiro elemento essencial é uma justificação pública sólida e verificável. Projetos que ultrapassam o mandato de uma única administração devem assentar em evidência, avaliações e objetivos que possam ser compreendidos e defendidos para além de um ciclo político específico. Isto reforça a sua legitimidade e permite determinar se continuam pertinentes à medida que as circunstâncias evoluem.

Um segundo elemento é o planeamento plurianual, sustentado por compromissos financeiros realistas. Projetos estratégicos não podem depender exclusivamente de decisões orçamentais anuais. O seu planeamento deve considerar as exigências de construção, operação, manutenção, renovação e gestão de contingências.

São igualmente necessários arranjos permanentes de governação. Os projetos devem ter responsáveis institucionais designados, equipas profissionais e mecanismos de supervisão que não desapareçam sempre que muda a liderança. Esta estabilidade deve coexistir com o direito de uma nova administração rever prioridades e propor alterações devidamente fundamentadas.

A rastreabilidade das decisões é igualmente importante. Alterações de âmbito, orçamento, calendário ou modelo de gestão devem ser documentadas. Continuidade não significa que um projeto não possa ser modificado; significa que qualquer alteração deve ser transparente, justificada e sujeita a avaliação.

Avaliações independentes em momentos críticos podem determinar se um investimento continua pertinente, se os seus custos permanecem razoáveis e se os benefícios esperados continuam alcançáveis. A participação de atores territoriais, técnicos e da sociedade civil pode também ampliar a legitimidade e reduzir a dependência de um projeto relativamente a uma única administração.

Em última análise, a continuidade exige planeamento plurianual, capacidade profissional, rastreabilidade, transparência, avaliação e legitimidade pública. Estes arranjos preservam o valor público de longo prazo sem impedir a supervisão democrática nem a correção de decisões quando a evidência o justifique.

Questão

05.

Resposta

Olhando para o futuro, que capacidades institucionais se tornarão cada vez mais decisivas para os governos que procurem reforçar a decisão estratégica, melhorar a execução e consolidar a capacidade do Estado a longo prazo?

Uma das capacidades mais importantes será a prospetiva estratégica. Os governos enfrentam transformações tecnológicas, demográficas, fiscais, ambientais e sociais que lhes exigem identificar riscos e oportunidades antes de estes se tornarem urgentes. A prospetiva não significa prever o futuro com certeza; significa preparar as instituições para responder a vários cenários plausíveis.

Uma segunda capacidade será transformar informação em conhecimento acionável. O desafio não consiste apenas em recolher dados, mas em assegurar a sua qualidade, interoperabilidade, proteção e utilização efetiva na tomada de decisão. A tecnologia pode melhorar significativamente a gestão pública, mas não pode substituir o discernimento estratégico nem a accountability institucional.

A capacidade de execução será também decisiva. O desenho de políticas é apenas uma parte do processo. Os resultados dependem de capacidades em matéria orçamental, contratação pública, gestão de projetos, coordenação territorial, tecnologia, liderança de equipas e resolução de obstáculos administrativos.

A aprendizagem institucional será igualmente importante. As organizações públicas têm de avaliar a sua experiência, reconhecer erros, reter conhecimento e transferir aprendizagens entre equipas. A avaliação deve ser entendida não apenas como um mecanismo de accountability, mas também como um instrumento de melhoria contínua.

Os governos terão também de reforçar a coordenação entre os níveis nacional, regional e local. Muitos desafios públicos são vividos localmente, embora a autoridade e os recursos estejam distribuídos por várias instituições.

Por fim, a capacidade do Estado a longo prazo dependerá da confiança pública. As instituições têm de explicar as suas decisões, reconhecer as suas limitações e continuar a responder pelos resultados. Os Estados mais fortes do futuro não serão simplesmente aqueles que dispõem de mais recursos, mas aqueles capazes de combinar prospetiva, conhecimento, execução, aprendizagem, coordenação e legitimidade.

Este diálogo foi realizado originalmente em inglês. A versão portuguesa corresponde a uma tradução editorial do texto original, preservando integralmente o sentido e o conteúdo do contributo.