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O arquivo como escudo

Entre memória institucional e adiamento estratégico existe, por vezes, apenas um arquivo.

Fragmento 4

O arquivo deveria ser a memória viva das instituições. Contudo, demasiadas vezes converte-se em escudo contra a mudança. Relatórios, atas e pareceres são invocados não para orientar a ação, mas para encerrar discussões, transformando o papel em substituto da decisão.

O documento preserva-se; a decisão adia-se.

Eric Ketelaar descreveu os arquivos como “templos e prisões”: lugares de preservação, mas também de ocultação. Hoje, em sistemas de saúde e no setor público europeu, este paradoxo é evidente. Multiplicam-se planos e auditorias que dão aparência de robustez, mas cuja implementação é mínima. O documento preserva-se; a decisão adia-se.

Paradoxalmente, enquanto alguns registos se acumulam até à saturação, outros aqueles que poderiam expor responsabilidades ou orientar reformas, desaparecem. Relatórios extraviados, pareceres não localizados ou bases de dados inacessíveis revelam como o arquivo pode ser seletivo: retém o que convém, apaga o que incomoda. A UNESCO, no programa Memory of the World, sublinha que a perda de documentação crítica constitui uma ameaça direta à transparência e ao futuro da governação.

Assim, o arquivo deixa de ser ferramenta de aprendizagem para se tornar refúgio de inércia. Produz a aparência de ordem, mas oculta a ausência de direção e é nesse vazio que muitas instituições perdem a sua capacidade de decidir.

Referências conceptuais

Eric Ketelaar - arquivos como memória, poder e ocultação institucional.

UNESCO - Memory of the World Programme.

Fragmentos críticos sobre os silêncios que moldam a tomada de decisões.

Daniela Teixeira

Expand Strategy™

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